BELA HOMENAGEM

Lembranças de Neto.

Era dia 20 de fevereiro de 2012, uma segunda-feira, quando por volta de meio dia, a notícia se espalhou como um rastilho de pólvora. Neto morreu! Neto morreu!

O dia estava diferente, impregnado de uma paralisia indecifrável, abafado, as folhas das árvores não se mexiam, apenas uma voz que se somava a outra, a outra, a outra, rompendo o silêncio do vazio no espaço, Neto morreu! Neto morreu!

É bem verdade que já andava doente, doença cruel e implacável, câncer no pâncreas, desde o início, o veredicto médico apontava para o desfecho daquele final de manhã do dia 20.

Mas, o cabra era de boa cêpa, mesmo na adversidade não se entregou em momento algum, dizia ele a todos seus interlocutores, amigos ou não, correligionários ou adversários – se é que existiram -, tenho muita fé em Deus e, peço a ele todos os dias para ficar mais um pouquinho e ver meus filhos crescerem, minha cidade prosperar, meu município consolidar seu caminho rumo a melhores dias para o povo.

No dia seguinte, terça- feira, 21, o enterro, as pessoas se aglomeravam desde a noite anterior, quando o corpo fora velado na sua residência, estando ali pela última vez materialmente, a impressão era de que contemplava seu lar. Às 9:0 horas, o corpo seguiu para a Câmara de Vereadores, local onde a multidão se acotovelava para lhe prestar a última homenagem.

Em todo roteiro fúnebre: de sua residência à Câmara, dali ao Cemitério, o silêncio era total, somente um maestro da batuta de Neto poderia reger depois de morto, uma orquestra de mais de seis mil componentes, ao som do silêncio, apenas o interminável silêncio que parecia atordoar a todos, às vezes interrompido pelo espontâneo romper dos aplausos, como se todos buscassem uma saída para o impossível, a exigir a presença viva de Neto.

Eu estava lá e, participei dessa manifestação pura, verdadeira, autêntica e sincera de carinho, amor e respeito por uma pessoa. A multidão não era composta de pretensos importantes, bajuladores de diversos matizes, interesseiros de toda ordem, falsos amigos, definitivamente não era.
Esta multidão tinha a cara de Neto, o coração de Neto, as virtudes de Neto, o amor de Neto, a simplicidade de Neto, o caráter de Neto, esta multidão era o povo de Mutuípe, sem fantasia e sem máscara, apesar de ser dia de carnaval, era o povo na sua expressão mais autêntica, autenticidade que foi a marca registrada de Neto, verdadeiro até seu último momento.

E assim, por volta de meio dia de terça-feira, 21, Neto foi sepultado no Cemitério de Mutuípe, onde ali descansará por toda eternidade, possivelmente vigilante ao destino do povo de Mutuípe.

Mas, quem foi Neto?

Creio que um amigo incansável, um simples agricultor, um político amador e por isso sem maldade, um administrador carismático pelo trato com as pessoas, um cidadão que não distinguia pessoas, tratava a todos da forma igual, um cara que não trocava a simplicidade dos humildes pela pretensa beleza dos abastados, um pai de família modesto, comedido e amoroso, um homem temente a Deus, bom irmão e bom filho, um guerreiro na adversidade, um bravo líder nascido em Mutuípe, certamente, foi tudo isso reunido no caráter de um homem. Não precisava chamar-se Antônio Felipe Evangelista Neto, apenas Neto.

Viva Neto! Viva Mutuípe!

Salvador, 22 de fevereiro de 2012.

Martins Nery

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