Treinador ensina boxe para crianças e jovens carentes em casarão antigo

Próximo a cartões-postais de Salvador, gritos e palavras de ordem nos leva ao casarão azul de número 22, do conjunto arquitetônico da Conceição da Praia, Comércio. No 2º  andar do prédio, tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), meninos e meninas de corpos franzinos – alguns nem tanto – treinam sequências de boxe em frente a espelhos.

A técnica, conhecida como shadow (do inglês, sombra), serve para corrigir os erros. “Ao se olharem no espelho, eles veem como podem melhorar”, diz o treinador Florisvaldo França dos Santos,  39 anos. Florisvaldo França dos Santos? Quando questionada até a própria esposa, a contadora Neuza Batista, 41, força a memória para associar o nome à pessoa. “Que senhor nada, é Aranha, Wagner Aranha, o lutador de boxe”, corrige um comerciante da região.


Ex-campeão de boxe, hoje o professor Wagner Aranha treina num casatão do Comércio dezenas de jovens

O que esses meninos veem no espelho e o que eles corrigem vão além do aperfeiçoamento da técnica. Aranha, que já foi vice-campeão baiano e brasileiro do esporte,  dá aulas de boxe a crianças e jovens, que consideram essa oportunidade como uma chance de esquivar-se de problemas sociais, uma chance de um futuro melhor.

“Vivemos um momento tão difícil em Salvador, principalmente para os jovens, que é preciso  ter o esporte como um aliado para que eles não caiam nas drogas, nas contravenções”, diz Aranha.

Chance 
Há dez anos, ele percebeu que o carisma e o respeito conquistados com as crianças eram uma abertura para retribuir as oportunidades que teve na vida. Nascido na cidade de Mutuípe, mas criado em Salvador, por uma tia, desde os 9 anos, ele começou a praticar esportes em uma ação similar a que faz hoje realizada, na época, no Batalhão de Polícia Militar do Barbalho.

“A infância foi uma fase  difícil. Eu era muito maltratado por minha tia, com quem morei desde pequeno quando vim do interior, eu encontrava no esporte um escape”, lembra.

Aranha, que na infância treinava com o ex-pugilista Popó e já chegou a jogar no Galícia Esporte Clube, hoje reúne  54 crianças – já chegou a ter mais de 80 – no programa que tem como lema o “nocaute da exclusão social”.

Fundada em novembro de 1996, a Associação Cultural Criativa de Boxe Bahia atrai crianças dos bairros da Saúde, Pelourinho, Gamboa, Preguiça, Dois de Julho, Barris e outras localidades do Centro.

“Alguns deles são meninos que sofrem porque têm em casa um parente com problema com a Justiça, usuário de drogas, que passam dificuldades financeiras. São meninos que às vezes dormem na rua, que viviam perambulando, batendo carteira e hoje têm o boxe como uma esperança de melhorias”, conta Neuza Batista, que apoia o marido.


Associação Cultural Criativa de Boxe Bahia atrai jovens de diversos bairros do Centro da cidade

Sonho 
Antes de conseguir a casa onde  mora, o grupo se reunia na Praça da Avenida Estados Unidos, no Comércio, e seguia para treinamento, ainda de forma improvisado, na Praia da Preguiça. Hoje, com um amplo espaço no casarão onde mora, Aranha tem como maior sonho equipar a academia e poder contribuir ainda mais com as crianças.

“Abri mesmo as portas da minha casa, aqui é quase um albergue. Sempre que posso faço um lanche, não deixa os aniversários dos meninos passarem em branco”. Na terça, quando a reportagem acompanhou uma das aulas, era  comemorado com cachorro-quente o aniversário de 16 anos de Douglas Araújo, que há mais de uma semana começou r o boxe. A garagem que aluga no térreo do casarão, as aulas particulares que dá e a ajuda de alguns pais sustentam financeiramente o boxe da garotada, e a família. Aranha tem três filhos, que também treinam.

Chance 
Na associação, já há jovens que sonham em dar continuidade ao trabalho. É o caso do barbeiro Wilson de Jesus Silva, 26, que desde os 14 treina com Aranha. “Eu vivia na rua 24 horas por dia e o boxe me deu chão. Hoje, eu me orgulho em ver outros jovens começando como eu”, diz.

Muitos participam de competições  amadoras em Salvador, mas pelos ringues de Aranha já passaram jovens que ganharam o mundo, como o Mestre Trovado –Marcelo Ferreira – duas vezes campeão baiano e brasileiro e campeão intercontinental.

 

Fonte: Correio*

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


4 × nove =

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>